Assim como, na década 70, a Mendes Júnior se engajou em um projeto de interesse nacional, no Iraque, para garantir o suprimento de petróleo ao Brasil, nos anos seguintes a empresa também esteve envolvida em outro trabalho estratégico: a construção da usina hidrelétrica de Itaparica, que visava evitar racionamentos de energia na região Nordeste. Contratada em 1981, pela Centrais Hidrelétricas do São Francisco (Chesf), a usina foi concluída em 1986, dentro do cronograma previsto, mas às expensas do grupo Mendes Júnior, uma vez que o contratante atrasou o pagamento das faturas em até 450 dias. Num período de alta inflação, era evidente que o fornecedor de serviços de engenharia financiava a Chesf, o que gerou uma discussão natural sobre a interrupção das obras. Ocorre que se tratava de um contrato de direito público e qualquer atraso na construção de Itaparica provocaria o racionamento de energia no Nordeste, com consequências devastadoras para a região.

 

Em razão disso, a Mendes Júnior assumiu os custos e encargos da obra, que, uma vez entregue, permitiu à Chesf que faturasse a energia gerada. Em vários documentos da própria Chesf, a companhia sempre reconheceu o direito do grupo Mendes Júnior em ser indenizado, mas a decisão foi sempre protelada, o que levou a construtora a ingressar com ação declaratória em 1998. Dois anos depois, o direito do grupo a uma indenização, corrigida a juros de mercado, havia transitado em julgado, com decisão definitiva do Superior Tribunal de Justiça. Como é público e notório, na década de 90, o Brasil praticou as maiores taxas de juros do mundo, o que transferiu riqueza dos devedores para os credores da sociedade. Naquele período, a Mendes Júnior já era credora da Chesf e, nesse ambiente, deveria interessar ao devedor liquidar o quanto antes suas dívidas. No entanto, a empresa adotou diversas medidas protelatórias para não honrar uma dívida líquida e certa, já transitada em julgado e reconhecida pelo STF, o que fez com que um débito inicialmente estimado em pouco mais de R$ 1 bilhão atingisse cifras que hoje superam centenas de bilhões de reais, segundo os mais renomados especialistas em contabilidade e administração pública.

 

Foi assim que uma quebra de contrato, promovida pela Chesf, provocou um dos maiores contenciosos jurídicos do Brasil. E tão grave quanto o passivo criado pela companhia foi a decisão de não provisionar a dívida em seu balanço, gerando prejuízos potenciais para milhares de investidores, mesmo tendo sido alertada pelo grupo Mendes Júnior.